Chamam-me a casamenteira porque gosto de me armar em Santo António. Não é um fetiche nem sequer um hobby doentio. Dá-me para ver quem fica bem com quem. Apenas olho para quem está só e apesar do inevitável momento de inveja, daquela suposta liberdade, daquela ausência de amarras e condicionantes(porque há quem goste verdadeiramente de momentos de completa solidão), não consigo deixar de pensar na solidão inerente a tudo o resto. Todos queremos partilhar o sofá com alguém, ter quem nos aqueça os pés nas noites frias de Inverno (isto é uma visão muito redutora mas não me ocorre outra), quem faça planos connosco, quem discuta filmes e espectáculos, quem faça parte do nosso álbum de fotografias de férias e momentos importantes. Há quem não precise de nada disto. Se formos verdadeiramente honestos com as profundezas do nosso Eu... há muitos mentirosos que argumentam "Eu estou bem é assim" "não há nada nem ninguém que me atrapalhe". Talvez. A não ser o constante vazio, ali ao lado, no visor do telemóvel, na cama, na mão, no peito. Para ir preenchendo uns espaços, procuro apresentar amigos a amigas, amigas a amigas e amigos a amigos. Pode ser que dê certo. There's no harm in trying. Aviso já: não aceito convites para madrinha. Tenho a minha conta de afilhados.
segunda-feira, 20 de julho de 2009
quinta-feira, 16 de julho de 2009
Everyone to the Bar
As notícias que enchem os noticiários lusos começam a ilustrar bem a season que se avizinha: silly. Senão, vejamos: temos mais de meia hora de directos para o belo do rapazola português que faz as delícias das meninas madrilenas (se o Real Madrid quer publicidade, nem precisa de a pagar já que os tugas embarcam no carrossel da fantochada de borla) e, há dois dias, a bela notícia sobre a modelo israelita Bar Refaeli, que aceitou posar para dois amigos de infância como veio ao mundo. Estes tipos conseguiram o que mais nenhuma revista de especialidade conseguiu: filmar a bela Bar nua, se entendermos como "NUA" o singelo cobrir de maminhas e matinha. Vêem-se uns vales e umas curvas, esteticamente bem delineados, como qualquer pintura renascentista. A mulher é muito bonita mas não está nua, lamentamos.
O ridículo a que se assiste é o destaque dado ao corpo de uma modelo, que engrossa a vasta lista do menú DiCapriano, em horário nobre, com reportagem do Henrique Zimmerman, como se de um acontecimento essencial à paz mundial se tratasse. Se ao menos a sua nudez apaziguasse a revolta palestiniana, entender-se-ia. Se a jovem o fizesse por causas humanitárias, entender-se-ia. Se nos referíssemos à beleza estética do filme (algo simplista, a meu ver), teríamos cartazes culturais para o efeito. Não se trata da venda de um Picasso ou Van Gogh. Trata-se de encher chouriços. Chouriços belos, mas chouriços. Nas horas seguintes, foram muitos que se colaram aos ecrãs e esfregaram os lóbulos das orelhas deixando a baba inundar os teclados dos pcs mundiais. A imprensa portuguesa, com particular destaque para a televisiva, começa a enjoar-me com tanta superficialidade.
segunda-feira, 13 de julho de 2009
On Chesil Beach
Tenho uma amiga de quem guardo as melhores recordações. Não temos hábitos instituídos como idas ao cinema, às compras ou jantares fora. Até porque não sou adepta de fazer compras acompanhada. Gosto de me maçar a mim mesma com a penosa tarefa de vestir, despir, olhar, ver, revirar, rodar e voltar a fazer tudo de novo. Em frente a vários espelhos. Sozinha. Com esta amiga, tenho o hábito de tomar café e falar interminavelmente de séries, filmes, actores, homens, sexo e... livros. Essencialmente, livros! E sempre que estou com ela contaminamo-nos mutuamente nas inspirações literárias. Duas horas sabem a pouco para a partilha das muitas linhas lidas, essencialmente daquelas que nos eriçaram a pele durante os vários meses em que não nos vimos. Depois da troca de várias impressões literárias, sempre polvilhadas de um corte e costura muito saudável, sobre o gosto e as opções estéticas de alguns colegas de trabalho (que fariam vomitar qualquer Tim Gunn), temos alguma dificuldade em conter a vontade de atacar uma livraria e encher o stock. Por acaso, costumamos encontrarmo-nos na Bulhosa... logo, o suplício começa in loco. Há 5 dias, porque estava a ressacar com um livro penoso, longo e pouco atraente (apesar das informações históricas e dos detalhes precisos sobre a vida de Galileu, continuo arrependida da compra - A Filha de Galileu... desaconselho), não consegui resistir e lá me entreguei a uma das sugestões: On Chesil Beach de Ian McEwan, ainda que traduzido. Mesmo sem o original, a sede de leitura era tanta que "I couldn't hold my panties". Acabei agora. Ainda estou atordoada perante a simplicidade e beleza do livro. Dois jovens no final da década de 50, num hotel, para a celebração da sua noite de núpcias. Os medos e desejos no íntimo de cada um deles e a forma como interpretam o outro. A forma como amam ou julgam amar. Uma descrição e narrativa belíssimas. Sem excessos. Sem floreados excessivos. Com os palavrões certos na hora certa. Obrigada, Sílvia. I can't wait for more.
quinta-feira, 9 de julho de 2009
quarta-feira, 8 de julho de 2009
EATING
Há duas coisas para as quais não estou predestinada: toxicodependente e anorética. A primeira porque tenho horror a qualquer tipo de agulhas injectadas seja em que sítio for. Ver alguém de bata branca, a elasticar-me o antebraço e dar-me palmadinhas vampirescas para despertar o sangue, dizendo com satisfação: "Que veias lindas que tem!" - o que pode indiciar a facilidade com que uma dose me entraria no organismo - não me agrada. NADA! Sou medricas, confesso. Deixo que os outros mo façam desde que eu possa olhar para as cagadelas de mosca no tecto do consultório.
A segunda tem a ver com o prazer que tenho em comer. Cada vez mais se torna uma arte. Cozinhar também, mas enquanto a cozinha estiver toda partida não vou poder imitar o Jamie Oliver, por isso, por agora, como. Como com muita satisfação. Como com o prazer de quem faz amor. Com tempo. Degusto, saboreio, repito, mastigo com calma e deixo que as minhas papilas gustativas se deixem levar pela explosão de sabores. Eu, como boa saloia que sou, gosto de sabores fortes, picantes, condimentados... ou não. Gosto de quase tudo. Não levo muito jeito para as mariquices vegetarianas. Gosto de carne e peixe. Tenros, temperados, saborosos. Ontem fui descobrir um restaurante. Há um site - Lifecooler - que me vai permitindo algumas descobertas interessantes. Nem foi tanto o meu prato - peito de pato com risoto - que me deixou tão fascinada. Foi o do meu melhor amigo. Uma mistura de porco com farinheira, cenoura, cogumelos... sei lá. Era absoluta e escandalosamente divinal. O mais engraçado é que o cozinheiro tem outra profissão. Há quem seja um verdadeiro artista. Convido os visitantes desta distopia a experimentar - Santíssimus, na rua S. João Da Mata ( perto das Ruas da Janelas Verdes) em Lisboa. O prato em questão intitula-se "Bochechas". Para quem não tem problemas de consciência e gosta verdadeiramente de pecar assim, com calorias, com prazer, por arte. Estou mais gorda 50 gramas mas ninguém me tira este sorriso de felicidade do rosto.
terça-feira, 7 de julho de 2009
I won't be the woman for the job
Tenho um gosto metálico na boca e quando acordo sinto como se tivesse engolido uma folha de zinco. Tomo banho e vejo o meu corpo a encher-se de manchas, pelo corpo todo, pelo corpo todo. Tenho um aperto no peito que me sufoca o ar e as entranhas. Sinto-me mal, tão mal que preferia ter um cancro para saber onde tratar. Não sei de onde vem e como surge ansiedade que me enche os minutos, todos, todos os dias, e me angustia a alma, enfraquecendo-me o vigor físico de outrora mas não me entorpecendo o cérebro. Ninguém sabe o que tenho mas acham que se tomar muitas drogas talvez me sinta melhor. Não sinto.
Por entre estas palavras angustiadas proferidas em impulsos de tremores e lágrimas, a minha colega justificou porque não pode ser uma boa coordenadora. É a única títular disponível para o cargo. There is no one else e, de acordo com o novo estatuto da carreira docente, só os titulares podem ter estes cargos... apesar de haver mais seis professores no grupo. Merdinha de lei.
quarta-feira, 1 de julho de 2009
The new Socrates
Lia no Público online que o nosso primeiro-ministro vai recorrer aos marketers milagreiros do Obama que conseguiram a sua eleição. Muito bem. É uma cartada forte com muitos aspectos contra. Senão, vejamos: o nosso pinoquiozinho ainda não é mulato, embora se continuar a partir pernas na neve, pode sempre ganhar uma melanina extra por causa do gelo.
Não há como considerá-lo uma "minoria". Logo, o povo não precisa mostrar que é tolerante, respeitador dos direitos dos oprimidos e eticamente correcto. O senhor pode sempre optar por fingir que saiu do armário mas, nesse caso, num país sexualmente reprimido como Portugal, terá garantido o fim da sua carreira política (a não ser que se candidate a PABBA - Presidente da Associação de Bares do Bairro Alto).
Portugal não tem um passado de feridas profundas, de desrespeito pelos mulatinhos. Isso foi lá nas colónias e quem ficou por cá não quer assumir as responsabilidades do que falhou no nosso passado colonial.
Os americanos que votaram no Obama, fizeram-no porque queriam mudar. Queriam muito mudar. O facto de ter sido um negro a fazer essa mudança é apenas sinónimo de que o país evoluiu e que as novas gerações responderam de forma correcta, respeitando os princípios base da constituição. O Obama tinha muita coisa a seu favor - parece honesto quanto às suas opções de vida, é dono de uma retórica poderosa e de um charme arrasador, não precisou de adulterar os resultados obtidos em Harvard e sabe perfeitamente do que fala nos seus discursos (porque discute o conteúdo dos mesmos). Ora, para quem ainda não fez a comparação - difícil, ui, mas necessária - o nosso primeiro é tudo menos claro, o charme é comprado na Armani, a sua retórica começa sempre por respostas desviantes a perguntas difíceis (Repare...Escute... Repare), é incapaz de falar sem muitos papelinhos e... será que preciso mencionar o curso superior???
O gajo ainda acha que uma máquina de marketing me vai convencer a comprar o chocolate que eu sei ser amargo? Para além disso, não estamos em crise? Quanto nos vai custar esta merda?????????????????????????????????
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